Prótese Total e Parcial Removível na Reabilitação de um paciente com Síndrome da Combinação

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Por: Frederico dos Reis Goyatá, Leandro Tolomeli, Fabiano Vieira de Landa, Paulo Antônio Arantes Vieira, Francisca Isabel Ruela*

Introdução

A possibilidade de perder todos os dentes da boca é um fato negativo na vida das pessoas. Os aspectos funcionais, estéticos e psicológicos estão intimamente envolvidos nesta situação na vida de grande parte da população brasileira. As próteses totais constituem –se como uma modalidade de tratamento reabilitador com o objetivo de devolver a função mastigatória, a estabilidade muscular e articular e a estética aos pacientes 1-5.

Quando os pacientes, em geral, apresentam-se com ausência total ou parcial anterior dos dentes superiores e presença de dentes anteriores inferiores, o processo de reabsorção óssea da pré-maxila é bastante acentuado e deve ser rapidamente diagnosticado e tratado. Esta situação clínica é descrita na literatura como um dos sinais da Síndrome de Kelly 6,7 .

Esta síndrome, também denominada de Síndrome da Combinação, caracteriza-se por alguns sinais clínicos e radiográficos que podem ser observados como: reabsorção óssea da pré-maxila, hiperplasia papilar do palato, extrusão dos dentes anteriores inferiores, reabsorção óssea nos extremos livres mandibulares, aumento das tuberosidades. Identificar estas alterações é extremamente importante para o cirurgião-dentista determinar um planejamento protético eficiente e viabilizar uma reabilitação funcional do paciente 8-11.

 Nem sempre estas manifestações clínicas ocorrem simultaneamente, uma vez que a perda dos dentes pode ocorrer em tempos diferentes e tratamentos restauradores e reabilitadores podem ser realizados em diferentes épocas da vida do paciente 12,13.

As possibilidades de tratamento dos pacientes edêntulos totais na maxila e com presença de dentes naturais inferiores anteriores são inúmeras: prótese total superior e prótese parcial removível inferior, implantes osseointegrados e overdentures maxilares e mandibulares, prótese parcial fixa implanto suportada (protocolo de Branemark)14-17. A proposta de reabilitação oral do paciente dependerá do caso clínico assim como das condições fisiológicas e financeiras do paciente.

Realizar um diagnóstico clínico precoce é importante para se prevenir uma maior reabsorção óssea da pré-maxila anterior, que em alguns casos, inviabilizará uma futura reabilitação protética funcional e estética.

Este trabalho tem por objetivo relatar, por meio de um caso clínico, o tratamento reabilitador com próteses removíveis em uma paciente com características clínicas da Síndrome da Combinação.

 

Relato do Caso clínico

Paciente, gênero feminino, S. M., 58 anos, apresentou-se à Clínica do Curso de Aperfeiçoamento em Prótese da EAP-ABO – Barra Mansa– RJ, queixando-se da falta de retenção e estabilidade da sua prótese total superior e ausência de dentes posteriores inferiores.

Ao exame clínico inicial, constatou-se que o paciente utilizava uma prótese total superior há pelo menos 20 anos e possuía dentes inferiores anteriores e ausência bilateral de dentes posteriores (classe I de Kennedy) sem fazer uso de uma prótese parcial removível, com perda da dimensão vertical de oclusão, quelite angular e fibrose gengival na região anterior da maxila (figuras 1 a 5). Observou-se uma perda óssea severa na região anterior da maxila ao exame clínico e radiográfico panorâmico. Estas características são sinais da Síndrome de Kelly.

Fig. 1 - Aspecto Facial Inicial
Fig. 1 – Aspecto Facial Inicial
Fig. 2 - Aspecto Facial Inicial-perfil
Fig. 2 – Aspecto Facial Inicial-perfil
Fig. 3 - Aspecto Facial Inicial-perfil
Fig. 3 – Aspecto Facial Inicial-perfil

 

Fig. 4 - Aspecto Clínico Inicial
Fig. 4 – Aspecto Clínico Inicial

 

 

Fig. 5 - Aspecto do cordão fibroso superior
Fig. 5 – Aspecto do cordão fibroso superior

 

 

 

 

 

 

 

Após o diagnóstico clínico e radiográfico, realizou-se um plano de tratamento que previa a confecção de uma nova prótese total superior e uma prótese parcial removível inferior. Iniciou-se com a moldagem da arcada superior com Silicona de Condensação (Optosile Xantopren, Heraeus, Alemanha) pela técnica de Eduardo, 1997 e posteriormente da arcada inferior com Alginato (Jeltrate Plus – Dentsply, Brasil) (Figuras 6 e 7)  para confecção dos modelos anatômicos em gesso Pedra e Pedra tipo IV (Herodent e Herostone -Vigodent, Brasil).

Fig. 6 - Molde Anatômico em Silicona de Condensação
Fig. 6 – Molde Anatômico em Silicona de Condensação
Fig. 7 - Molde em alginato
Fig. 7 – Molde em alginato

 

Os modelos anatômicos foram preparados, sendo o modelo inferior delineado e planejado a confecção da infraestrutura da PPR e enviado ao técnico em prótese dentária(TPD). Após a confecção laboratorial da infraestrutura, esta foi provada em boca (Figuras 8 e 9).

Fig. 8 - Modelo inferior com a PPR
Fig. 8 – Modelo inferior com a PPR
Fig. 9 - PPR prova em boca
Fig. 9 – PPR prova em boca

 

Confeccionou-se a seguir a moldeira individual em resina acrílica e posterior moldagem funcional com pasta zinco enólica (Pasta LS, Vigodent, Brasil) e silicona de adição (Flextime, Heraeus, Alemanha) (Figura 10).

Fig. 10 - Molde funcional da PT superior
Fig. 10 – Molde funcional da PT superior

 

 

 

 

 

 

 

A partir do modelo funcional superior, foi confeccionada a base de prova em resina acrílica autopolimerizável onde foi construído o plano de orientação. A seguir instalou-se o plano de orientação superior e o inferior e determinou-se suporte labial, dimensão vertical, corredor bucal, linha do sorriso, distância entre os caninos, linha média e selecionou a cor da gengiva das futuras próteses (Figura 11).

Fig. 11 - Modelo Funcional
Fig. 11 – Modelo Funcional

 

 

 

 

 

 

 

Finalizada esta etapa, os modelos e planos de orientação foram enviados ao TPD para a montagem dos dentes e prova funcional em boca (Figuras 12 e 13). Utilizou-se, neste caso clínico, os dentes Magister (Heraeus, Alemanha).

Fig. 12 - Registro Oclusal com os planos de cêra
Fig. 12 – Registro Oclusal com os planos de cêra

 

Fig. 13 - Dentes montados
Fig. 13 – Dentes montados

 

 

 

Procedeu-se com a prova estética e funcional dos dentes e posterior moldagem funcional da PPR inferior com silicona de adição pela técnica da boca fechada (figura 15). Neste momento selecionou-se a cor da gengiva para guiar a confecção e acrilização das próteses (Figura 16).

Fig. 15 - Moldagem Funcional da PPR inferior
Fig. 15 – Moldagem Funcional da PPR inferior
Fig. 16 - Seleção da cor da gengiva
Fig. 16 – Seleção da cor da gengiva

Após a acrilização em laboratório (Figura 17), as próteses removíveis foram instaladas e ajustadas, devolvendo a função, a fonética e a estética à paciente (Figuras 18 a 21).

Fig. 17 - PT e PPR acrilizadas
Fig. 17 – PT e PPR acrilizadas

 

Fig. 18 - Aspecto clínico final
Fig. 18 – Aspecto clínico final

 

Fig. 19 - Aspecto facial final
Fig. 19 – Aspecto facial final

 

Fig. 20 - Aspecto facial final-perfil
Fig. 20 – Aspecto facial final-perfil

Discussão

O diagnóstico correto das características clínicas clínicas relacionadas à Síndrome de Kelly é importante para estabelecer um tratamento reabilitador que devolva a função mastigatória adequada, a fonética e a estética ao paciente 14,15 conforme apresentado neste relato de caso clínico.

As causas da Síndrome ainda são muito conflitantes na literatura, embora Kelly em 1972, afirmou que algumas alterações, podem ser percebidas após a instalação da prótese total superior e da prótese parcial removível inferior, como: reabsorção óssea na região anterior da maxila, hiperplasia papilar do palato duro, extrusão dos dentes anterior inferiores, perda óssea posterior inferior e aumento da tuberosidade. 6,8,9,11 e apresentadas neste trabalho.

Algumas características adicionais complementam os achados clínicos relacionados à Síndrome da Combinação, tais como: perda da dimensão vertical de oclusão, reposicionamento anterior da mandíbula, desadaptação das próteses removíveis, epúlide ou granuloma fissuratum 9-10 características apresentadas neste trabalho.

Na maioria dos estudos 6,8,17,19 , as características são observadas em pacientes que utilizam uma prótese total superior e uma prótese parcial removível inferior (classe I de Kennedy). Alguns pacientes (classe III modificação II) com extremidade bilateral inferior também podem apresentar as características clínicas similares as da Síndrome da Combinação19 assim como em pacientes com a arcada superior edêntula e antagonista com overdentures retidas por implantes ou prótese implanto suportadas 10 ,15,16,22.

Para minimizar a perda óssea, reembasamento e ajustes oclusais devem ser feitos antes mesmo de se reabilitar o paciente, sendo uma forma de estabilizar a reabsorção óssea da pré-maxila anterior 15,20-21 .

O sucesso do tratamento reabilitador seja com próteses removíveis ou com próteses implanto suportadas se fundamenta num planejamento correto com a anamnese, o exame clínico, os exames complementares14. Alguns critérios clínicos devem ser obedecidos tais como: dentes anteriores com ausência ou mínimo contato em oclusão cêntrica, exercendo somente a função de estética e fonética. Para os dentes posteriores, contato cêntrico e durante os movimentos excursivos mandibulares, finalizando como uma oclusão balanceada bilateral 7,13,22 conforme apresentado neste trabalho.

 

Considerações Finais

Concluiu-se que a reabilitação protética com a prótese total superior e a prótese parcial removível inferior reabilitou a função mastigatória e o suporte muscular facial bem como a estética dos dentes e do sorriso.

Com esta modalidade de tratamento foi possível devolver a satisfação e a auto estima à paciente.

 

* Frederico dos Reis GOYATÁ

Especialista, Mestre e Doutor em Prótese.

Prof. de Clínica Integrada da Faculdade de Odontologia – UNIFAL- Alfenas-MG.

Prof. dos Cursos de Especialização e Aperfeiçoamento em Prótese e Dentística da ABO- Barra Mansa-RJ e CIALF – Alfenas-MG

 

Leandro Tolomeli

Especialista em Endodontia EAP- ABO- Barra Mansa-RJ

Especialista em Implantodontia e Pós Graduado em Prótese EAP-ABO-Barra Mansa.

Mestrando em Prótese – UNITAU.

 

Fabiano Vieira de Landa

Especialista em Prótese Dentária e Mestre em Clínica Odontológica.

Prof. do Curso de Especialização em Prótese da ABO- Barra Mansa-RJ.

 

Paulo Antônio Arantes Vieira

Doutor em Endodontia. Prof. de Clínica Integrada da Faculdade de Odontologia da UNIFAL- Alfenas-MG.

 

Francisca Isabel Ruela

Doutora em Materiais Dentários. Profa. de Clínica Integrada da Faculdade de Odontologia da UNIFAL- Alfenas-MG.

 

*Endereço: Rua José Ferreira de Morais, 114. Bairro Jardim Aeroporto, CEP: 37130-000 Alfenas-MG.

Telefone: (35) 3292-7061.

E-mail: fredgoyata@oi.com.br

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