Como Vai a Saúde Bucal do Seu Filho?

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A atuação do Cirurgião-Dentista no núcleo familiar onde a criança vive é um dos mais importante meios de manutenção da saúde bucal. Os adultos são o exemplo e também responsáveis por elas. Por isso, é de fundamental importância à instalação de hábitos saudáveis desde os primeiros anos de vida.

Quando devemos iniciar a primeira consulta odontológica?

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Ainda, depois do nascimento da criança, a mãe deverá levá-la sempre ao dentista para que o acompanhamento e a manutenção da saúde bucal sejam realizados, bem como as orientações de cuidados para cada fase da vida seja reforçada.

O que é a doença cárie dentária?

Uma explicação simples para essa doença é que ela ocorre devido a um processo de perdas de minerais do dente, um processo chamado desmineralização. Em situações como essa o ambiente da boca fica mais ácido, ou seja, o pH fica abaixo de 5,5. Essa queda do pH pode ser causada por consumo frequente de açúcares como o açúcar branco de mesa ou alimentos que o contenham. Quando em contato com o biofilme ou placa bacteriana aderida ao dente os microrganismos utilizam esses açúcares para produzirem ácidos, ocorrendo a perda de minerais dos dentes. Se essa perda for contínua aparecerão os sinais clínicos da doença que começa com a formação de uma mancha branca (Fig. 1)

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Fig 1. Mancha branca na região vestibular dos dentes superiores e posteriormente, se não houver a paralisação, existirá a presença de cavidades em esmalte e dentina
(Fig 2),

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Fig 2. Cavitação do esmalte no dente 53 e cavidade em dentina no dente 52

que são estruturas mais internas dos dentes, podendo atingir a polpa do dente, provocando dor dentária, abscessos (Fig 3) e até tumefação facial (Fig 4).

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Fig 3. Abscesso na região posterior do dente 84Fig 4. Tumefação facial na região direita de face proveniente de um abscesso dento-alveolar do dente 84.

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Para aqueles que não veem importância nos dentes decíduos, salientamos que eles são tão importantes como os dentes permanentes, além de garantirem o espaço e futuro alinhamento dos dentes permanentes. Ainda, muitos estudos mostram que a cárie dentária em crianças pode influenciar muito a sua qualidade de vida, pois dificulta a função mastigatória, fonação, aparência estética e, portanto, o desenvolvimento da criança (Firmino et al., 2015; Clementino et al., 2015; Schuch et al., 2015; Plonka et al., 2013).

Os bebês possuem condições que favorecem a presença da doença cárie. Em crianças pequenas a saliva e os movimentos dos músculos que permitem uma auto limpeza das superfícies dos dentes estão diminuídos. Assim os alimentos ficam aderidos por mais tempo nos dentes, favorecendo a produção dos ácidos cariogênicos (FIGURA 5). Além disso, o esmalte do dente decíduo possui menos minerais que o do dente permanente, o que contribui com e a evolução mais rápida das lesões de cárie. (Walter et al., 2014)

Como avaliar o risco de cárie e atividade de cárie nas crianças de 0 a 5 anos?

As decisões para elaborar um plano de tratamento individualizado e adequado para cada paciente dependem da avaliação do risco à cárie dentária. Alguns aspectos do paciente podem ser investigados e havendo a presença destes aspectos, a criança pode ser caracterizada com alto ou baixo risco. Neste momento, estamos falando de crianças livres de cárie, porém se houver um fator de risco presente, este pode proporcionar o aparecimento da doença. Alto risco – fatores biológicos: mãe/babá com lesões de cárie ativas, pais com baixos níveis socioeconômicos, criança que faz mais de 6 ingestões de alimentos/bebidas contendo açúcar entre as refeições, criança que dorme com mamadeira contendo açúcar e não há limpeza da boca.

Alta atividade de cárie – fatores clínicos: a criança apresenta mais de uma superfície cariada, perdida ou restaurada, lesões de mancha branca ativa ou defeitos de desenvolvimento de esmalte, altos níveis salivares de estreptococos do grupo mutans.

Baixo risco: ingestão de água fluoretada, dentes escovados diariamente com dentifrício fluoretado, aplicação tópica de flúor profissional, cuidados odontológicos regulares entre outros.

(AAPD, 2014; Souza et al., 2012)

Quais são as orientações?

Alimentação:

  1. Avaliação da dieta:

Para se avaliar o quanto os alimentos podem provocar cárie ou não, são considerados sua composição, maneira de ingestão, frequência, consistência e horário de consumo.

2. Composição:

Alimentos com açúcares extrínsecos, principalmente o açúcar de mesa, propiciam a presença da doença cárie dentária e seus sinais clínicos, devido utilização desses alimentos pelos microrganismos provocando a queda do pH da saliva e do biofilme e, consequentemente a perda de minerais dos dentes.

3. Consistência:

Alimentos que ficam aderidos nos dentes  sendo metabolizados pelos microrganismos por mais tempo, contribuindo para a desmineralização dentária.

4. Frequência:

Quanto maior é o número de vezes da ingestão de açúcar, por exemplo, maior é a ocorrência de perda de minerais dos dentes, se esse número for superior a seis vezes existirá um alto risco a cárie dentária.

5. Horário:

O consumo de alimentos açucarados durante a noite, principalmente antes de dormir, e sem a higienização posterior dos dentes, provoca um alto risco a cárie dentária. A diminuição do fluxo salivar, os movimentos musculares e o reflexo de deglutição diminuem dificultando a autolimpeza da cavidade bucal e, então o alimento fica estagnado na cavidade bucal propiciando um ambiente favorável à desmineralização dentária.

6. Método de ingestão:

A utilização da mamadeira contribui para a ingestão de alimentos açucarados, possui boa aceitação pela criança e pode ser utilizada em qualquer momento do dia, aumentando a frequência de consumo. É utilizada, muitas vezes, antes de dormir e propicia a instalação de hábitos deletérios, dessa forma a transição da mamadeira para a utilização de copos e colher é fundamental.

7. Medicamentos:

Grande parte dos medicamentos utilizados para crianças é adoçada. Após o seu uso, dificilmente a higienização dos dentes é realizada, principalmente durante a noite, aumentando consideravelmente o risco para a cárie dentária.

  Orientações dietéticas:

  • As recomendações do Ministério da Saúde, publicado em 2002, sobre a “Orientação dos 10 passos para a alimentação saudável da criança menor de 2 anos”, é uma ótima referência para utilizar. (Brasil, 2002).
  • O ideal é que a família conheça os benefícios dos alimentos saudáveis e os traga para a sua vida diária, adaptando-os a sua realidade, dessa forma servindo de bom exemplo à criança.
  • O aleitamento materno deve ser estimulado pelos profissionais da saúde. Como foi visto na matéria anterior (“A importância da amamentação”), ele é fundamental para o desenvolvimento saudável das crianças, diminui a exposição à sacarose e também a possibilidade de instalação de hábitos deletérios.
  • Os bebês devem experimentar a maior quantidade de alimentos saudáveis possíveis, de acordo com cada faixa etária, isso o ajudará a desenvolver sua preferência.
  • Direcionar o consumo de açúcares extrínsecos de maneira menos nociva e adaptada para a realidade da família. A utilização do açúcar deve ser controlada, evitando seu consumo antes dos 2 anos de idade.

Fontes: Armfield et al., 2013; Brasil, 2002; Moynihan et al., 2014; Ccahuana-Vásquez et al., 2007; Avila et al., 2015; Feldens et al., 2010; Carvalho et al, 2014; Fraiz et al., 2013.

Higiene Bucal

A remoção do biofilme bacteriano por meio do uso de fio dental e da escovação com a presença do flúor na prevenção e tratamento da doença cárie é fundamental.

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O flúor interfere no processo de remineralização e desmineralização, tornando o processo de desmineralização do esmalte dentário mais lento, pois quando o pH salivar cai o flúor precipita os minerais perdidos pelo dente, depositando-os na superfície dentária e assim tornando-os mais resistentes aos desafios cariogênicos.

Mesmo o flúor sendo considerado fator de risco para a fluorose dentária, ele deve ser indicado sob supervisão dos responsáveis, pois os benefícios são maiores que os riscos. As maiorias dos casos de fluorose, relatados na literatura, possuem grau muito leve ou leve e parece não influenciar na qualidade de vida de adolescentes, ao contrário da doença cárie dentária que, devido as suas consequências, traz grande impacto para a vida das crianças e de sua família. (Chankanka et al., 2010; Firmino et al., 2015).

Além disso, muitos alimentos e bebidas, além do dentifrício fluoretado (creme dental com flúor), possuem o flúor em sua composição como o arroz e feijão, o leite e o sal, por exemplo. Por isso, não justifica privar as crianças dos benefícios desse componente em concentração eficaz (creme dental com 1000 ppm de flúor), visto que a fluorose dentária é reflexo da ingestão e absorção do flúor para a corrente sanguínea ao longo do tempo, e a escovação deve ser realizada pelos responsáveis com a quantidade do dentifrício controlada pelos mesmos, diminuindo o risco. (Walsh et al., 2010).

Tabela criada com base: no capítulo – Tenuta et al., 2012; AAPD – Guideline of Fluoride Therapy, 2014; Walter et al., 2014; ADA, 2014.

 

Dra. Jéssica Barasuol

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